ENCANTARIA BRASILEIRA ENTRE CABOCLOS E ENCANTADOS – II

PARTE II

Mudanças recentes em cultos de Caboclo na perspectiva de um chefe de terreiro.

Não é necessariamente o índio. Pode ser uma entidade mestiça, mas que nem sempre tem o mesmo conceito usado nos outros cultos. Na Umbanda e no candomblé queto, angola e jeje, as divindades voduns, orixás e inquices são consideradas africanas, enquanto que o Caboclo é brasileiro. Na mina não é assim: o encantado não é necessariamente brasileiro.

Cultuam-se na mina várias famílias de Caboclos-Encantados que são entedades que hoje carregam nomes brasileiros, enquanto outros se abrasileiram, mas não são originários de nosso país. Têm muitas outras origens: portuguesa, italiana, turca, austríaca, africana, embora tenham aceitado o Brasil como sua terra.

Devido ao entrosamento com várias casas de Umbanda e Candomblé (queto, jeje, nagô e angola) no Sul do país, pode ser observado que o Caboclo seria o mesmo, porém com concepções diferentes. Acredita-se que o Caboclo-Encantado é o ancestral de todos, pois já existia mesmo antes do surgimento da Umbanda, pelo menos desde uns cem anos atrás Ele já existia e, depois de assumir várias formas, veio descendo para o Sul e lá, em face das novas condições encontradas, tomou nova feição.

Principalmente na Umbanda, em que a presença Kardecista é marcante, o Caboclo se desencantou, ficou tão somente Caboclo e tomou uma nova postura, mais submissa, com atitudes mais puras, mais próximas dos ideais cristãos de comportamento (pureza exigida, já que sua anterior era muito critica), enquanto no Norte permaneceu como antes, sincretizado sim, mas sem copiar as virtudes ou querer imitar o comportamento dos Santos Católicos.

No Norte, na mina, ele é o Caboclo ancestral, enquanto que no Sul ele é o Caboclo descendente, surgindo com nova roupagem. No sul se apresenta nas casas de Umbanda, pregando uma visão meio Católico/Kardecista, com comportamento diferenciado, quase não bebendo e nem fumando, muito embora, se analisarmos muitas de suas cantigas e outras características, vamos remontar à sua origem primitiva.

Esse caboclo descendente também tem mudado hoje. Nas casas de mina e de Umbanda, antigamente, quando desciam, os Caboclos obedeciam a determinados rituais, como: a) tirar sua doutrina (cantigas, pontos, dota). b) riscar seu “ponto” com pemba. c) dizer sua origem e significado

Aí ele mostrava uma família, uma origem, toda uma ancestralidade. Ele não era simplesmente Caboclo. Hoje se vê muito o uso de nomes de Caboclos que nunca existiram e que quando muito são desdobramento de outros Caboclos já existentes. Por exemplo: Caboclo Sete Flechas da Mata e Caboclo Sete Flechas das Estrelas, que nada mais são que o Caboclo Sete Flechas. A justificativa para essas novas aparições seriam Caboclos outros que trabalhariam na vibração de Sete Flechas. Mas, por que então não usarem sues próprios nomes?  É o mesmo com a Cabocla Jurema da Mata e a Cabocla Jurema da Cachoeira, derivações da própria Cabocla Jurema.

Na mina, assim como nos Candomblés de Caboclo, ele só pode estar atuado (incorporado) numa única pessoa e não em várias pessoas ao mesmo tempo.

Continuaremos a tratar deste assunto na próxima semana.

 

Axé,

Odékainã

 

Fonte:

Chefe de terreiro: Francelino de Shapanan.

Livro: Encantaria Brasileira – O Livro dos mestres, Caboclos e Encantados – Reginaldo Prandi.

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