ENCANTARIA BRASILEIRA ENTRE CABOCLOS E ENCANTADOS – III

PARTE III

Mudanças recentes em cultos de Caboclo na perspectiva de um chefe de terreiro.

Aí começaram-se a notar as múltiplas diferenças.

Em muitos terreiros de Umbanda, numa mesma festa pública ou privada, o mesmo caboclo, usando o mesmo nome, pode incorporar simultaneamente em vários filhos, o que demonstra haver uma outra interpretação, outro conceito de caboclo, diferente daquele da mina. O nome pode ser o mesmo, mas é diferente a concepção que se tem da entidade. Mas há também casas de umbanda em que cada entidade é própria de cada filho de santo.

Antigamente, nas casas de candomblé queto e jeje da Bahia, como no Xangô de Pernambuco, não se cultuava caboclo. Sua presença estava limitada ao candomblé de caboclo, a partir do qual passaram para as casas de candomblé angola e congo, tendo também presença obrigatória nas casas de nina nagô do Maranhão. Depois foram adentrando as demais nações e hoje está presente em quase todos os cultos e até nas casas mais ortodoxas.

Embora se fale indistintamente de encantado e caboclo, há diferenças bem marcantes em sua maneira e posturas, já que o encantado não seria o mesmo caboclo da umbanda e do terreiro de candomblé. O encantado tem uma postura muito própria. Na mina, ele é perfeitamente individualizado, tem sua família, tem seu mito próprio, ele tem uma descendência, ele tem história, enquanto na umbanda e no candomblé ele perdeu sua memória ancestral.

Nos diversos cultos afro-brasileiros há uma inter-relação entre as entidades dos caboclos, encantados, mestres, boiadeiros, etc., com diferenças bem marcadas que podem ser apontadas.

O Caboclo propriamente dito

Caboclo é o índio civilizado que veio para a cidade, que se misturou com o branco e até mesmo com o africano. São deste grupo as entidades que mais baixam na umbanda. Alguns usam expressões em tupi-guarani para se identificar ou se comunicar. Quando manifestados, o caboclo usa panos e faixas com laços, chapéu de palha, enxada. Usa rodilha e não torso. Fuma charuto. Trabalha para resolver problemas, vem brincar e leva recados dos fiéis para a mata, depois trazendo as respostas. É independente e, na maioria das vezes, se apresenta como grande guardião dos orixás, os donos do axé. No candomblé não se admite a incorporação de um mesmo caboclo simultaneamente em vários filhos.

Continuaremos a tratar deste assunto na próxima semana.

Axé,

Odékainã

 

 

Fonte:
Chefe de terreiro: Francelino de Shapanan.
Livro: Encantaria Brasileira – O Livro dos mestres, Caboclos e Encantados – Reginaldo Prandi.

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