ENCANTARIA BRASILEIRA ENTRE CABOCLOS E ENCANTADOS – IV

PARTE IV

Mudanças recentes em cultos de caboclo na perspectiva de um chefe de terreiro.

Muitas casas de Umbanda já não mantem a tradição do caboclo “riscar ponto”, “cantar sua doutrina” e die o “que representa”. Gestos que definem, pois toda a sua história está ali contida, com seu “ponto riscado”, que se repete durante toda a vida. Na Umbanda tradicional, quando da “coroação” do médium, o caboclo usa cocar de penas, levando arco e flechas na mão. É subordinado a Oxóssi, o rei da macaia. Com o passar do tempo e dentro da sua evolução o caboclo se torna chefe da macaia.
Boiadeiros
Para a mina, os boiadeiros formam uma linhagem de caboclos, com maior presença nas casas de Candomblé Angola, onde se identificam como brasileiros e dizem ser originários da Hungria, talvez uma Hungria perdida na memória dos tempos. Assemelham-se a alguns encantados de mina da família do Codó, também conhecida como família de Seu Légua Boji Buá ou família Mata do Codó, e misturam-se com os vaqueiros. Estes três grupos – boiadeiros, vaqueiros e codoenses – estariam muito próximos entre si. A maioria dos terreiros de Umbanda moderna já tem boiadeiros, mas transformados. Têm poucas cantigas próprias e já usam botas em vez de ficar descalços, como na Angola. Aliás, a família do Codó não tolera ficar calçada. Boiadeiro é o caboclo chefe dos vaqueiros, é o fazendeiro. Usa roupa de couro, fuma cigarro de palha ou charuto. É um aliado de índios e caboclos.
A Umbanda também confunde os mestres da Jurema (entidades do Catimbó), chamando-os de boiadeiros e até mesmo de Exus. E aí surge a figura conhecidíssima e polêmica de Seu Zé Pelintra, que tem uma biografia real, verídica, é um grande mestre da jurema pernambucana e em São Paulo transformou-se algumas vezes em baiano e outra em Exu.
Vemos então a grande mistura do que seria o baiano e o caboclo, o caboclo e o marinheiro, o caboclo e o cigano, o caboclo e o exu, o caboclo e o boiadeiro.
Índios
Índio é o caboclo de mata bruta, selvagem da mata fechada. Veste pena, usa cocar, penacho, rodilha de folhas (homens) e de flores (mulheres). O chefe é o cacique, abaixo do qual estão o tuxana, depois o morubixaba, e o abaré-guaçu, abaré-mirim, abaré. É um caboclo em estado selvagem, é a origem do caboclo e a origem dos mestres da jurema, mas que precisa ser doutrinado. O índio seria o início da doutrinação do médium quando está começando e que não sabe diferencia entre terreiro e mata, por isso vem bravo, bruto, sem disciplina. Quase não se vê mais a sua presença na Umbanda, pois ultimamente já vem evoluído, enquanto no candombe é nula sua presença. Na mina está se extinguindo, pois os mineiros atuais preferem trabalhar com entidades mais modernas e adaptadas ao nosso modo de viver e entender.

Na próxima semana continuaremos falando sobre o assunto.
Odékainã.

Fonte:
• Francelino de Shapanan (Chefe de terreiro)
• Encantaria Brasileiro – O livro do Mestre, Caboclos e Encantados (Reginaldo Prandi).

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