Encantaria Brasileira – Exus no Candomblé de Caboclos – Parte I

PARTE I

Carlos Caroso*
Núbia Rodrigues**

 

       “A virada para a banda das esquerdas”

 

       A expansão dos cultos aos exus nas religiosidades afro-brasileiras é o tema que abordaremos neste trabalho, no qual buscamos uma explicação para o fenômeno. Em nosso modo de compreender, o culto a essas entidades pode ser explicado como resultado da recente escala na competição pelo mercado de bens simbólicos, entre os quais se incluem os rituais e as práticas terapêuticas, representando tanto uma reação da tradição religiosa afro-brasileira ao avanço de religiosidades neopentecostais, quanto uma marca da competição entre os terreiros. Outrossim, o assentamento de exus nas antigas casas de caboclos pode ser compreendido como parte do processo de umbandização pelo qual passam, que contribui para a renovação das religiosidades tradicionais e lhes fornece uma identidade urbanizada, ao tempo que estimula a invenção de novas tradições como parte da estratégia de resistência dessas instituições religiosas.

Para compreender os significados da invenção de novas tradições no culto aos exus em casas de culto afro-brasileiro em Conde, na Bahia, abordaremos duas dimensões relacionadas à entidade, seu culto e seus rituais. A primeira refere-se à ambivalência de seu poder, haja vista que é concebido como uma entidade que pode, simultaneamente, causar e curar doenças, promover a desordem e restabelecer a ordem. A segunda refere-se à recente expansão dos rituais nos quais Exu é a divindade central. Questionamos se este movimento constitui uma reação à tradição religiosa afro-brasileira ao avanço de religiosidades pentecostais e neopentecostais que rapidamente se estabelecem na localidade, ou se representa uma escalada na competição entre as casas de candomblé, através da hiperdramatização litúrgica que inclui um considerável aumento da prática de rituais envolvendo sacrifícios de animais como oferendas a Exu.

 

Posições contextuais dos exus

Nossos estudos sobre as agências religiosas como parte dos recursos comunitários em saúde datam de 1991, quando iniciamos uma pesquisa interdisciplinar sobre os signos, significados e práticas em saúde mental. Desde então temos nos aproximado de outras formas temáticas correlatas, em busca de compreender de que forma as práticas religiosas contribuem para a prevenção, tratamento e reabilitação das pessoas que passam por crises emocionais e recebem cuidados nas casas de culto afro-brasileiro.

Nesta tentativa de compreender a relação entre doença mental, tratamento, família e comunidade, percebemos a importância das casas de culto afro-brasileiro como espaços de busca terapêutica. No panteão deste contexto religioso e terapêutico são encontrados orixás, caboclos, exus e erês que ocupam posições diferenciadas no imaginário dos seguidores dos cultos afro-brasileiros. Consideramos que estas entidades são complementares e fazem parte de um mesmo sistema de crenças.

Nossa atenção para o culto aos exus foi despertada pelo fato de muitos adeptos dos cultos afro-brasileiros em Conde, apesar de serem filhos e zelarem deste ou daquele orixá, quando se encontram em situações difíceis, que envolvem doenças, infortúnios e outras vicissitudes da vida cotidiana, tais como desemprego e problemas no relacionamento interpessoal que demandam por soluções rápidas e seguras, em vez de recorrerem ao Orixá dono da sua cabeça, pelo qual zelam da quartinha, acendem pontos e tiram cantos e rezas, recorrem aos serviços dos exus.

 

Continuaremos a tratar deste assunto na próxima semana.

Axé,

Odékainã.

 

 

Fonte:

* Doutor em Antropologia pela Universidade da Califórnia em Los Angeles.
** Doutoranda em Saúde Pública pela Universidade Federal da Bahia e Professora Assistente do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas dessa universidade.
– Encantaria Brasileiro – O livro do Mestre, Caboclos e Encantados (Reginaldo Prandi).

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