ENCANTARIA BRASILEIRA CANDOMBLÉ DE CABOCLOS EM SÃO PAULO

Reginaldo Prandi*

Armando valado**

André Ricardo de Souza***

 

“Ainda tem caboclo debaixo da samambaia”

         O caboclo é a entidade espiritual presente em todas as religiões afro-brasileiras, sejam elas organizadas em torno de orixás, voduns ou inquices. Pode não estar presentem num ou noutro terreiro dedicado aos deuses africanos, mas isto é exceção. Seu culto perpassa as modalidades tradicionais afro-brasileiras – candomblé, xangô, catimbó, tambor-de-mina, batuque e outras menos conhecidas -, constitui o cerne de um culto praticamente autônomo, o candomblé de caboclo, e define estruturalmente a forma mais recente e mais propagada da religião afro-brasileira, a Umbanda.

A origem dos candomblés de caboclo estria no ritual de antigos negros de origem banta, que na África distante cultuavam os inquices – divindades africanas presas a terra, cuja mobilidade geográfica não faz sentido – e que no Brasil viram-se forçados a encontrar um outro antepassado para substituir o inquice que não os acompanhou à nova terra. Neste novo e distante país, que antepassado cultuar senão o índio, o caboclo, como diziam os antigos nordestinos? Os antigos habitantes, quem senão o verdadeiro e original “dono da Terra (Santos, 1995)”.

Além da animação, outra característica marcante é seu poder de cura e a disposição para ajudar os necessitados, mais a sabedoria. Acredita-se que os caboclos conhecem profundamente os segredos das matas, podendo assim receitar com eficácia folhas para remédios e banhos medicinais. No imaginário popular o caboclo é a um só tempo valente, destemido, brincalhão e altruísta, capaz de nos ajudar para o alívio das aflições cotidianas. As pessoas que frequentam os cultos, sobretudo a mais pobres, encontram nesta entidade um sábio curandeiro, sempre pronto a vir em socorro dos aflitos.

O termo candomblé de caboclo teria surgido na Bahia, entre o povo-de-santo ligado ao candombe de nação queto, originalmente pouco afeito ao culto de caboclo, justamente para marcar sua distinção em relação aos terreiros de caboclos.

Na próxima semana continuaremos falando sobre o assunto.

Axé,

Odékainã.

 

* Doutor e Livre-Docente em Sociologia pela Universidade de São Paulo, instituição da qual é Professor Titular de Sociologia.
** Mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é babalorixá do Candomblé Casa das Águas, em Itapevi, São Paulo.
*** Bacharel em Ciências Sociais e mestrando em Sociologia na Universidade de São Paulo.

Fonte:

  • Encantaria Brasileira – O livro dos Mestres, Caboclos e Encantados (Reginaldo Prandi).
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