UMBANDA E CARIDADE

O que é caridade? Muitas explicações existem. Explicações que vão desde uma solidariedade com os necessitados até um solidarismo mascarado, uma idéia de salvação.

Eu quero ir além.

Sou umbandista e tudo que aprendi nessa religião formou uma estrutura para minha vida.

Aprendi que caridade é uma necessidade diária de quem trilha seu caminho, mas ela não é exatamente um sinônimo de solidariedade, ela é uma atitude de construção do mundo, uma proposição eterna de mudança.

Caridade é um conjunto de consciência social e consciência interna, é a perfeita noção do que somos.

Ela é a percepção de nosso papel em relação a nossos problemas serem vinculados aos de um mundo externo.

Nossa própria vida é vinculada a esse mundo e necessitamos, nós e o mundo, de uma atuação firme, de uma mudança em direção ao equilíbrio.

Caridade, portanto, é mudar em direção ao nosso real, é abolir as máscaras, nossas e do mundo.

É mais ter caráter e ética, é ser ético consigo e como conseqüência com o todo à sua volta.

É usar suas forças para construir-se e constituir um mundo livre de opressões e ética duvidosa.

Livre de misérias assumidas ou impostas.

Sem nunca vender a alma ao demônio de plantão (que pode ser um cargo melhor, que se obtém pisando em alguém; um suborno aceito ou dado; um lixo que se joga no chão após uma conferência pela salvação do meio ambiente ou uma negativa em relação às idéias que se acalenta em nome de uma estabilidade estagnada) é uma atitude real de melhoramento diário do que somos e do mundo à nossa volta.

A verdadeira caridade pode ser irônica, dura, amável ou violenta.

Um tapa na bunda de uma criança pode ser mais caridoso do que uma explicação boazinha que passe a mão em sua cabeça.

Um grito com um amigo, uma manifestação dura e que destrua sonhos inábeis, pode ser um ato de caridade maior do que um carinho que o deixe criar a ilusão de que seu auto-imposto sofrimento é o melhor caminho para a sua vida.

Caridade é buscar o melhor emprego, caminho, mulher, vida, dinheiro, filme, cultura, casa, tudo isso.

E também aprender a criticar, ouvir críticas, lutar por mais dinheiro, lutar contra as opressões estatais, lutar contra destruidores, mau caráter, ladrões, hipócritas, ignorâncias embasadas entre um mundo de posições que esculhambam o mundo em que se vive.

Mais vale um protesto por um melhor serviço de telefonia que um passe, quando se trata de caridade.

Mais vale uma dura repreenda ou uma irônica seqüência de frases do que uma abertura de chacras e uma oração para que o “astral” ilumine a cabeça dura de alguns seres do mundo.

Caridade não é realmente bondade, é atitude.

Não é realmente ajuda, é decisão.

É deixar o outro decidir sozinho, formando uma cultura, uma visão do mundo.

É não desprezar o outro e acreditar que todos temos forças suficientes de mudarmos a nós mesmos e o mundo.

     E caridade é mudar a si mesmo e ao mundo.

 

       Axé,

       Odékainã

 

 

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